Resumo Clínico Inicial
⚡ Definição: Condição crônica caracterizada por elevação sustentada da pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg e/ou diastólica ≥ 90 mmHg, aferida corretamente em múltiplas ocasiões.
Importância Clínica: Principal fator de risco modificável para doença cardiovascular. Responsável por 45% das mortes cardíacas e 51% das cerebrovasculares no Brasil.
População Afetada: Acomete 30-35% da população brasileira adulta. Prevalência aumenta com idade (65% em maiores de 60 anos), obesidade e sedentarismo.
Diagnóstico: Baseado em múltiplas medidas de PA em consultório (≥ 140/90 mmHg), confirmação por MAPA (≥ 130/80 mmHg) ou MRPA (≥ 130/80 mmHg). Investigar lesão de órgão-alvo e causas secundárias.
Conduta: Modificações de estilo de vida para todos. Terapia farmacológica combinada para HAS grau ≥2 ou grau 1 com risco moderado/alto. Classes de primeira linha: IECA/BRA + BCC ou tiazídico.
Red Flags: PA ≥ 180/120 mmHg com sintomas, angina, dispneia aguda, déficit neurológico focal, cefaleia intensa súbita, alteração visual aguda, rebaixamento de consciência, dor torácica.
Índice
CONDUTAS MÉDICAS
A hipertensão arterial sistêmica é uma condição crônica de elevada prevalência mundial, afetando mais de um bilhão de adultos. No Brasil, representa problema de saúde pública com prevalência estimada em 30-35% da população adulta.
Constitui o principal fator de risco modificável para doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e renais. Apesar da disponibilidade de diretrizes baseadas em evidências, as taxas de diagnóstico, tratamento e controle permanecem subótimas na prática clínica.
A transição demográfica e o envelhecimento populacional têm ampliado o número de indivíduos afetados. O manejo adequado reduz significativamente a morbimortalidade cardiovascular.
Definição: Elevação persistente da pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg e/ou diastólica ≥ 90 mmHg, confirmada em pelo menos duas consultas com técnica adequada de aferição.
Classificações Internacionais:
| Classificação | PAS (mmHg) | PAD (mmHg) | Diretriz |
|---|---|---|---|
| Normal | < 120 | < 80 | EUA/Brasil |
| PA Elevada | 120-129 | < 80 | EUA |
| Pré-hipertensão | 130-139 | 85-89 | Brasil |
| HAS Estágio 1 | 140-159 | 90-99 | Brasil |
| HAS Estágio 2 | 160-179 | 100-109 | Brasil |
| HAS Estágio 3 | ≥ 180 | ≥ 110 | Brasil |
Classificação Europeia 2024 (Simplificada):
-
PA não elevada: ≤ 120/70 mmHg
-
PA elevada: 120-139/70-89 mmHg
-
HAS: ≥ 140/90 mmHg
-
Hipertensão arterial sistêmica (HAS)
-
Pressão alta (termo popular)
-
Hipertensão essencial (forma primária, 90-95% dos casos)
-
Hipertensão secundária (5-10% dos casos, com causa identificável)
-
Hipertensão sistólica isolada (PAS ≥ 140 mmHg com PAD < 90 mmHg)
-
Hipertensão do jaleco branco (PA elevada apenas no consultório)
-
Hipertensão mascarada (PA normal no consultório, elevada fora dele)
-
Hipertensão resistente (não controlada com 3 drogas, incluindo diurético)
-
Hipertensão refratária (não controlada com 5 ou mais drogas otimizadas)
Mecanismos Fundamentais:
A pressão arterial resulta do produto entre débito cardíaco e resistência vascular periférica. Múltiplos sistemas regulatórios mantêm a homeostase pressórica.
Sistemas Envolvidos:
Sistema Nervoso Simpático
-
Hiperativação simpática
-
Redução tônus parassimpático
-
Aumento frequência cardíaca
-
Vasoconstrição periférica
Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona
-
Vasoconstrição (Angiotensina II)
-
Retenção de sódio e água
-
Hipertrofia vascular
-
Fibrose miocárdica
Disfunção Endotelial
-
Redução de óxido nítrico
-
Inflamação crônica
-
Estresse oxidativo
-
Perda de elasticidade arterial
Fatores Renais
-
Redução de néfrons
-
Retenção de sódio
-
Ativação SRAA
-
Rigidez arterial renal
Fatores Contribuintes:
-
Genética (30-50% da variabilidade)
-
Obesidade e adiposidade visceral
-
Dieta hipersódica
-
Envelhecimento vascular
-
Resistência insulínica

Hipertensão Primária (Essencial) - 90-95%:
-
Multifatorial: fatores genéticos + ambientais
-
Predisposição familiar
-
Envelhecimento progressivo
-
Estilo de vida inadequado
Hipertensão Secundária - 5-10%:
▶▶ Causas Renais
-
Doença renal crônica
-
Doença renovascular (estenose artéria renal)
-
Glomerulopatias primárias
-
Rim policístico
-
Nefropatia diabética
▶▶ Causas Endócrinas
-
Hiperaldosteronismo primário
-
Síndrome de Cushing
-
Feocromocitoma
-
Hipertireoidismo
-
Hipotireoidismo
-
Acromegalia
-
Hiperparatireoidismo
▶▶ Causas Vasculares
-
Coarctação da aorta
-
Doença vascular renal
▶▶ Fármacos e Substâncias
-
Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs)
-
Anticoncepcionais orais
-
Corticosteroides
-
Antidepressivos (tricíclicos, ISRS)
-
Descongestionantes (pseudoefedrina)
-
Estimulantes e anfetaminas
-
Cocaína
-
Eritropoetina
-
Ciclosporina
▶▶ Outras Causas
-
Apneia obstrutiva do sono
-
Hipertensão gestacional/pré-eclâmpsia
Prevalência Global:
-
Mais de 1 bilhão de adultos afetados mundialmente
-
Tendência crescente devido ao envelhecimento populacional
-
Maior prevalência em países de baixa e média renda
Dados Brasileiros:
-
30-35% da população adulta
-
65% dos indivíduos acima de 60 anos
-
Maior prevalência em populações de baixa renda
-
Subdiagnóstico e baixo controle (< 50% dos casos tratados)
Distribuição:
-
Aumenta progressivamente com a idade
-
Discretamente mais prevalente em homens jovens
-
Mais comum em mulheres após menopausa
-
Maior prevalência em populações negras
Impacto:
-
Responsável por 45% das mortes cardíacas
-
Causa 51% das mortes cerebrovasculares
-
Principal fator de risco para DAC, AVE, DRC e IC

⚠️ Fatores de Risco Não Modificáveis:
- Idade > 60 anos
- História familiar positiva
- Etnia (população negra)
- Redução congênita do número de néfrons
- Sexo masculino (até menopausa)
Fatores de Risco Modificáveis:
| Fator | Impacto | Intervenção |
|---|---|---|
| Obesidade/Sobrepeso | 70% dos casos de HAS | Redução ponderal |
| Sedentarismo | Aumenta risco em 30% | 150 min/semana exercício |
| Dieta hipersódica | > 5g sal/dia | ≤ 5g sal/dia |
| Etilismo excessivo | ≥ 30g álcool/dia | < 30g/dia ou abstinência |
| Tabagismo | ↑ PA em 5-10 mmHg | Cessação completa |
| Estresse crônico | Hiperativação simpática | Técnicas de relaxamento |
| Dislipidemia | Risco CV adicional | Dieta + estatina |
| Diabetes melito | Risco CV duplicado | Controle glicêmico |
Critérios de Síndrome Metabólica:
-
Circunferência abdominal aumentada (♂ > 94 cm, ♀ > 80 cm)
-
Hipertensão arterial
-
Hiperglicemia de jejum
-
Triglicerídeos elevados
-
HDL reduzido
TELEMEDICINA
Indicações Apropriadas:
-
Acompanhamento de pacientes com HAS controlada
-
Ajuste de medicações em hipertensos estáveis
-
Revisão de exames laboratoriais
-
Orientação sobre medidas não farmacológicas
-
Reforço de adesão terapêutica
-
Avaliação de efeitos colaterais de medicações
-
Renovação de receituário em pacientes estáveis
Pré-requisitos:
-
Paciente com MRPA ou aparelho confiável em casa
-
Registro adequado das medidas pressóricas domiciliares
-
Ausência de comorbidades descompensadas
-
Boa adesão prévia ao tratamento
-
Impossibilidade de exame físico completo
-
Ausência de aferição profissional da PA
-
Dificuldade em avaliar lesões de órgão-alvo
-
Limitação para ajustes complexos de terapia
-
Risco de subdiagnóstico de hipertensão do jaleco branco/mascarada
-
Menor vínculo médico-paciente em primeira consulta
🚨 Encaminhamento Presencial Imediato:
- PA ≥ 180/120 mmHg com sintomas
- Suspeita de emergência hipertensiva
- Sintomas cardiovasculares agudos (angina, dispneia)
- Sintomas neurológicos (déficit focal, cefaleia intensa)
- Sinais de insuficiência cardíaca descompensada
- Angioedema por IECA
- Primeira consulta para diagnóstico de HAS
Avaliação Presencial Eletiva:
-
Suspeita de hipertensão secundária
-
HAS não controlada após 3 ajustes medicamentosos
-
Necessidade de MAPA/MRPA
-
Investigação de lesão de órgão-alvo
-
Múltiplos efeitos adversos medicamentosos
-
Gestante com PA limítrofe ou elevada
ENCAMINHAMENTO
Indicações de Encaminhamento:
| Situação | Especialidade | Urgência |
|---|---|---|
| Hipertensão resistente verdadeira | Cardiologia | Alta |
| Suspeita de hipertensão secundária | Cardiologia/Nefrologia | Alta |
| DRC com TFG < 30 mL/min | Nefrologia | Média |
| Lesão de órgão-alvo grave | Cardiologia | Média |
| HAS em jovem < 30 anos | Cardiologia | Média |
| Necessidade de denervação renal | Cardiologia intervencionista | Eletiva |
🚨 EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA - Encaminhar SAMU/PS:
PA ≥ 180/120 mmHg + pelo menos um dos seguintes:
Cardiovascular:
- Síndrome coronariana aguda
- Edema agudo de pulmão
- Dissecção aguda de aorta
Neurológico:
- AVE isquêmico ou hemorrágico agudo
- Encefalopatia hipertensiva
- Cefaleia súbita intensa (suspeita HSA)
Renal:
- Lesão renal aguda
- Hematúria macroscópica
Oftalmológico:
- Retinopatia hipertensiva grau IV (papiledema)
- Perda visual aguda
Gestacional:
- Eclâmpsia
- Pré-eclâmpsia grave (PA ≥ 160/110 mmHg)
Atenção Primária (UBS/ESF):
-
Rastreamento e diagnóstico
-
Tratamento inicial e seguimento
-
Controle de casos não complicados
-
Prescrição de medicamentos disponíveis na RENAME
Atenção Secundária (Ambulatório Especializado):
-
Hipertensão resistente/refratária
-
Investigação de hipertensão secundária
-
Ajustes terapêuticos complexos
-
Avaliação de lesão de órgão-alvo
Atenção Terciária (Hospital):
-
Emergências hipertensivas
-
Hipertensão secundária complexa (feocromocitoma, etc.)
-
Complicações graves (IAM, AVE, dissecção aorta)
-
Procedimentos especializados (denervação renal)
SINAIS E SINTOMAS
💡 Conceito Fundamental:
A hipertensão arterial é majoritariamente ASSINTOMÁTICA. O diagnóstico é estabelecido por medidas de rotina ou durante investigação de complicações cardiovasculares.
Manifestações Clínicas (quando presentes):
▶▶ Sintomas Inespecíficos
-
Cefaleia (principalmente occipital, matinal)
-
Tonturas e vertigens
-
Zumbido
-
Palpitações
-
Fadiga
-
Visão turva
▶▶ Sintomas de Lesão de Órgão-Alvo
-
Dispneia aos esforços (IC)
-
Dor precordial (DAC)
-
Edema de membros inferiores (IC)
-
Déficit visual (retinopatia)
-
Hematúria (nefropatia)
-
Claudicação intermitente (doença arterial periférica)
▶▶ Manifestações de Emergência Hipertensiva
-
Cefaleia súbita e intensa
-
Confusão mental
-
Déficit neurológico focal
-
Dor torácica intensa
-
Dispneia grave
-
Alteração visual aguda
História da Doença Atual:
-
Duração dos sintomas (se presentes)
-
Quando foi a última medida de PA e valores
-
Medidas domiciliares (MRPA informal)
-
Sintomas cardiovasculares
-
Sintomas neurológicos
-
Sintomas renais
Antecedentes Pessoais:
-
Diagnóstico prévio de HAS e tempo de doença
-
Uso de anti-hipertensivos (drogas, doses, adesão)
-
Comorbidades: DM, dislipidemia, DAC, AVE, DRC
-
Internações por causas cardiovasculares
-
Histórico de gestação (pré-eclâmpsia)
História Familiar:
-
HAS em familiares de 1º grau
-
Morte súbita em familiares jovens
-
DAC precoce (♂ < 55 anos, ♀ < 65 anos)
-
AVE em familiares
Hábitos de Vida:
-
Tabagismo (carga tabágica)
-
Etilismo (quantificar g álcool/dia)
-
Atividade física (tipo, frequência, duração)
-
Padrão alimentar (sal, gorduras, processados)
-
Estresse ocupacional/pessoal
-
Qualidade do sono (investigar apneia)
Medicações em Uso:
-
AINEs
-
Anticoncepcionais
-
Corticoides
-
Antidepressivos
-
Descongestionantes nasais
-
Suplementos e fitoterápicos
Investigação de HAS Secundária:
-
Idade de início < 30 ou > 50 anos
-
HAS refratária ao tratamento
-
Piora súbita de controle prévio
-
Crises paroxísticas (feocromocitoma)
-
Roncos e apneias testemunhadas
-
Ganho ponderal + fraqueza muscular (Cushing)
-
Cãibras e fraqueza (hiperaldosteronismo)
Técnica Adequada de Aferição:
📏 Preparo do Paciente:
- Repouso de 5 minutos, dorso recostado
- Pernas e braços descruzados
- Bexiga vazia
- Evitar nos 30 min anteriores: alimentação, tabagismo, cafeína
- Evitar nos 60 min anteriores: exercício físico
Técnica:
- Manguito adequado (circunferência do braço)
- Braço apoiado na altura do coração
- Primeira consulta: aferir em ambos os braços
- Realizar 3 medidas com intervalo de 1-2 minutos
- Descartar primeira, considerar média das 2 últimas
- Em idosos/diabéticos: medir deitado e em pé (hipotensão postural)
Exame Físico Geral:
-
Antropometria:
-
Peso, altura, IMC
-
Circunferência abdominal (♂ > 94 cm, ♀ > 80 cm)
-
Relação cintura/quadril
-
Inspeção Geral:
-
Fácies cushingóide
-
Sinais de acromegalia
-
Sinais de tireoidopatia
-
Distribuição anormal de gordura
-
Palpação de Pulsos:
-
Radiais (simetria, amplitude)
-
Carotídeos (frêmitos, amplitude)
-
Femorais (simetria - coarctação de aorta)
-
Pedioso e tibial posterior (DAP)
-
Ausculta Cardíaca:
-
Ritmo (FA)
-
Sopros (estenose aórtica, insuficiências)
-
B3 ou B4 (IC, HVE)
-
Ictus desviado (cardiomegalia)
-
Ausculta Pulmonar:
-
Estertores (IC)
-
Roncos (apneia do sono)
-
Abdome:
-
Sopros abdominais (estenose renal)
-
Massas palpáveis (rim policístico)
-
Pulsação abdominal aumentada (aneurisma)
-
Extremidades:
-
Edema (IC, nefropatia)
-
Temperatura e coloração (DAP)
-
Fundoscopia (quando disponível):
-
Retinopatia hipertensiva (cruzamento AV, exsudatos, papiledema)
Pesquisa de Hipotensão Postural:
-
Medir PA em decúbito após 5 min repouso
-
Paciente levanta e medir imediatamente
-
Medir novamente após 3 minutos em pé
-
Positivo: Queda ≥ 20 mmHg PAS ou ≥ 10 mmHg PAD
-
Indicações: Idosos, diabéticos, disautonomia
Índice Tornozelo-Braquial (ITB):
-
PA sistólica tornozelo / PA sistólica braquial
-
Normal: 0,9 - 1,3
-
< 0,9: Doença arterial periférica
-
> 1,3: Calcificação arterial (diabetes)
| Característica | Quadro Típico | Quadro Atípico (Investigar) |
|---|---|---|
| Idade | > 40 anos | < 30 anos ou início súbito > 50 anos |
| Sintomas | Assintomático | Crises paroxísticas, cefaleia intensa |
| História familiar | Positiva | Negativa em jovem hipertenso |
| Resposta ao tratamento | Boa resposta | Resistência a múltiplas drogas |
| Exame físico | Sem alterações específicas | Sopros, assimetria de pulsos, fácies |
| Laboratório | Função renal normal | Hipocalemia espontânea, DRC |
CLASSIFICAÇÃO DE GRAVIDADE
⚖️ A gravidade da hipertensão é determinada não apenas pelos valores de PA, mas principalmente pela presença de:
- Fatores de risco cardiovascular adicionais
- Lesões de órgãos-alvo (clínicas ou subclínicas)
- Doenças cardiovasculares estabelecidas
| Categoria | PAS/PAD | Fatores de Risco | LOA/DCV | Risco CV |
|---|---|---|---|---|
| Normal | < 130/80 | Ausentes | Não | Baixo |
| PA Elevada | 130-139/80-89 | Presentes | Não | Moderado |
| HAS Estágio 1 | 140-159/90-99 | Presentes | Não | Moderado |
| HAS Estágio 1 | 140-159/90-99 | Múltiplos ou DM | Sim | Alto |
| HAS Estágio 2 | 160-179/100-109 | Quaisquer | Quaisquer | Alto |
| HAS Estágio 3 | ≥ 180/110 | Quaisquer | Quaisquer | Muito Alto |
-
Idade (♂ ≥ 55 anos, ♀ ≥ 65 anos)
-
Tabagismo atual
-
Dislipidemia
-
Diabetes melito
-
Obesidade (IMC ≥ 30)
-
História familiar de DCV precoce
-
HVE no ECG/ecocardiograma
-
Microalbuminúria/proteinúria
-
TFG < 60 mL/min
-
Espessamento íntima-média carotídea > 0,9 mm
-
VOP carotídeo-femoral > 10 m/s
-
ITB < 0,9
-
Doença arterial coronariana
-
Insuficiência cardíaca
-
AVE/AIT prévio
-
Doença arterial periférica
-
Fibrilação atrial
ABORDAGEM DIAGNÓSTICA
✅ Diagnóstico de Hipertensão Arterial:
Medida de Consultório:
- PA ≥ 140/90 mmHg em pelo menos 2 consultas diferentes
- Técnica adequada de aferição
- Exceção: HAS estágio 3 (≥ 180/110 mmHg) → diagnóstico na 1ª consulta
MAPA (Monitorização Ambulatorial):
- Média 24h: ≥ 130/80 mmHg
- Média vigília: ≥ 135/85 mmHg
- Média sono: ≥ 120/70 mmHg
MRPA (Monitorização Residencial):
- Média ≥ 130/80 mmHg
- 5 dias consecutivos
- 3 medidas manhã + 3 medidas tarde
Condições Especiais:
| Condição | Definição | Prevalência |
|---|---|---|
| HAS do Jaleco Branco | PA elevada no consultório, normal na MAPA/MRPA | ~18% |
| HAS Mascarada | PA normal no consultório, elevada na MAPA/MRPA | ~8% |
| HAS Resistente | Não controlada com 3 drogas (incluindo diurético) | ~10% |
| HAS Refratária | Não controlada com ≥ 5 drogas otimizadas | ~1-2% |
Exames Obrigatórios para Todos:
| Exame | Objetivo | Periodicidade |
|---|---|---|
| Creatinina + TFG | Avaliar função renal | Anual |
| Potássio sérico | Investigar hiperaldosteronismo | Anual |
| Glicemia jejum + HbA1c | Rastrear diabetes | Anual |
| Perfil lipídico completo | Estratificar risco CV | Anual |
| Ácido úrico | Marcador de risco CV | Anual |
| EAS (urina tipo 1) | Avaliar proteinúria/hematúria | Anual |
| Microalbuminúria | LOA renal precoce | Anual |
| TSH | Avaliar função tireoidiana | Inicial |
| ECG 12 derivações | Avaliar HVE, isquemia, arritmias | Anual |
Exames Complementares Selecionados:
-
Ecocardiograma: HVE no ECG, suspeita de IC, alto risco CV
-
US carótidas: Sopro carotídeo, AVE prévio, DAP conhecida
-
Fundoscopia: HAS estágio 2-3, diabetes, longa data
-
VOP (velocidade onda pulso): Baixo/médio risco para reclassificação
-
Índice tornozelo-braquial: Claudicação, DAP suspeita
| Condição | Pistas Clínicas | Exame Específico |
|---|---|---|
| HAS Essencial | Adulto, história familiar, múltiplos FR | Exclusão de causas secundárias |
| Hiperaldosteronismo 1º | Hipocalemia espontânea, HAS resistente | Aldosterona/renina, TC adrenal |
| Doença Renovascular | Sopro abdominal, assimetria renal, ↓ TFG com IECA | Doppler renal, angioTC |
| Doença Renal Crônica | Proteinúria, hematúria, TFG reduzida | US renal, proteinúria 24h |
| Feocromocitoma | Tríade: cefaleia, sudorese, palpitações. Crises | Metanefrinas urinárias/plasma |
| Síndrome de Cushing | Fácies em lua cheia, estrias, obesidade central | Cortisol livre urinário, teste supressão |
| Apneia do Sono | Roncos, sonolência diurna, obesidade | Polissonografia |
| Coarctação de Aorta | Jovem, assimetria pulsos MMSS/MMII | Ecocardiograma, angioTC |
| Hipertireoidismo | Taquicardia, perda peso, PAS isolada ↑ | TSH, T4 livre |
| Medicamentos/Drogas | Uso de AINEs, ACO, corticoides, cocaína | História medicamentosa |
| HAS do Jaleco Branco | PA alta no consultório, normal em casa | MAPA/MRPA |
🔍 Quando Suspeitar de HAS Secundária:
- Idade < 30 anos ou início súbito > 50 anos
- HAS resistente verdadeira (após afastar má adesão e pseudo-resistência)
- Piora súbita de PA previamente controlada
- HAS estágio 2-3 sem fatores de risco óbvios
- Hipocalemia espontânea (K < 3,5 sem diurético)
- Proteinúria ou hematúria significativas
- Sopro abdominal ou massas palpáveis
- Assimetria de pulsos ou pressão entre membros
- Crises paroxísticas (tríade de feocromocitoma)
PROGNÓSTICO
📊 Impacto da Hipertensão não Tratada:
- Redução de 5-7 anos na expectativa de vida
- Risco 3-4x maior de AVE
- Risco 2-3x maior de IAM
- Risco 6x maior de IC
- Principal causa de DRC terminal
-
Diagnóstico precoce (< 50 anos)
-
Ausência de lesão de órgão-alvo
-
Bom controle pressórico (meta < 140/90 mmHg)
-
Boa adesão ao tratamento
-
Ausência de comorbidades (DM, dislipidemia)
-
Hábitos de vida saudáveis
-
HAS estágio 3 (≥ 180/110 mmHg)
-
Lesão de órgão-alvo estabelecida
-
Diabetes melito associado
-
Doença cardiovascular estabelecida
-
HAS resistente/refratária
-
Múltiplos fatores de risco cardiovascular
-
Má adesão ao tratamento
| Desfecho | Redução de Risco |
|---|---|
| AVE | 35-40% |
| IAM | 20-25% |
| Insuficiência cardíaca | 50% |
| Mortalidade cardiovascular | 25-30% |
| Progressão de DRC | 30-40% |
ACOMPANHAMENTO
| Situação | Intervalo |
|---|---|
| Diagnóstico recente, ajuste medicamentoso | Mensal até controle |
| HAS não controlada | Quinzenal a mensal |
| HAS controlada, sem comorbidades | Semestral |
| HAS controlada com comorbidades | Trimestral |
| HAS resistente | Mensal (com especialista) |
🎯 Metas Terapêuticas de PA:
Por Risco Cardiovascular:
- Baixo/moderado: < 140/90 mmHg
- Alto risco: 120-129/70-79 mmHg
Por Comorbidade:
- Diabetes melito: 120-129/70-79 mmHg
- DRC, DAC, IC, AVE prévio: < 130/80 mmHg
- Na DAC: manter PAD 70-79 mmHg
Por Faixa Etária:
- Adultos < 65 anos: < 130/80 mmHg (idealmente < 120-129/70-79)
- Idosos hígidos (65-80 anos): 130-139/70-79 mmHg
- Idosos frágeis (> 80 anos): 140-149/70-79 mmHg
A cada consulta:
-
Aferição de PA (técnica adequada)
-
Verificação de adesão medicamentosa
-
Investigação de efeitos adversos
-
Reforço de medidas não farmacológicas
-
Avaliação de sintomas de LOA
Anualmente:
-
Creatinina e TFG
-
Potássio
-
Glicemia e HbA1c
-
Perfil lipídico
-
Ácido úrico
-
EAS e microalbuminúria
-
ECG
-
Fundoscopia (se disponível)
-
Peso, IMC, circunferência abdominal
Conforme indicação:
-
Ecocardiograma (a cada 2-3 anos se alterado)
-
MAPA/MRPA (controle inadequado, suspeita jaleco branco)
-
US carotídea (se alto risco)
COMPLICAÇÕES
Cardiovasculares:
-
Hipertrofia ventricular esquerda
-
Insuficiência cardíaca
-
Doença arterial coronariana
-
Infarto agudo do miocárdio
-
Fibrilação atrial
-
Dissecção de aorta
-
Aneurisma de aorta
Cerebrovasculares:
-
AVE isquêmico
-
AVE hemorrágico
-
Ataque isquêmico transitório
-
Encefalopatia hipertensiva
-
Demência vascular
-
Hemorragia subaracnóidea
Renais:
-
Nefrosclerose hipertensiva
-
Doença renal crônica
-
Lesão renal aguda (crise hipertensiva)
-
Proteinúria
-
DRC terminal (diálise)
Oftalmológicas:
-
Retinopatia hipertensiva
-
Hemorragias retinianas
-
Exsudatos algodonosos
-
Papiledema
-
Perda visual
Vasculares Periféricas:
-
Doença arterial periférica
-
Claudicação intermitente
-
Isquemia crítica de membros
🚨 Complicações Agudas (Emergências):
- Síndrome coronariana aguda
- Edema agudo de pulmão
- Dissecção aguda de aorta
- AVE (isquêmico ou hemorrágico)
- Encefalopatia hipertensiva
- Lesão renal aguda
- Eclâmpsia
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
ETAPA 1 - Confirmação Diagnóstica:
-
Confirmar diagnóstico (múltiplas medidas, MAPA/MRPA se necessário)
-
Classificar estágio da HAS
-
Estratificar risco cardiovascular
-
Investigar causas secundárias (se indicado)
ETAPA 2 - Avaliação Inicial:
-
Solicitar exames complementares básicos
-
Avaliar lesões de órgão-alvo
-
Identificar comorbidades
-
Calcular risco cardiovascular (escore SCORE2 ou similar)
ETAPA 3 - Decisão Terapêutica:
-
HAS estágio 1 + baixo risco: Medidas não farmacológicas por 3 meses
-
HAS estágio 1 + risco moderado/alto: Início imediato de tratamento
-
HAS estágio ≥ 2: Início imediato de terapia combinada
ETAPA 4 - Início do Tratamento:
-
Orientar medidas não farmacológicas (todos os pacientes)
-
Iniciar monoterapia (idosos frágeis, ≥ 85 anos) ou terapia dupla (demais)
-
Preferir combinações fixas (melhor adesão)
-
Escolher classes conforme perfil (ver seção Guia de Prescrição)
ETAPA 5 - Monitoramento e Ajustes:
-
Reavaliação em 4-8 semanas
-
Se meta não atingida: aumentar dose ou adicionar 3ª droga
-
Se meta não atingida com 3 drogas: adicionar 4ª (Espironolactona)
-
HAS resistente: encaminhar ao especialista
🥗 Mudanças de Estilo de Vida - FUNDAMENTAIS para todos os hipertensos
1. Controle de Peso:
-
Meta: IMC 18,5-24,9 kg/m² (20-27 kg/m² em idosos)
-
Circunferência abdominal: < 90 cm (♂), < 80 cm (♀)
-
Redução de 1 kg = redução ~1 mmHg na PA
2. Padrão Alimentar Saudável:
-
Dieta DASH ou Mediterrânea:
-
Rica em: frutas, verduras, cereais integrais, castanhas
-
Pobre em: carnes vermelhas, gorduras saturadas, processados
-
Redução esperada: 8-14 mmHg
3. Restrição de Sódio:
-
Meta: ≤ 5g sal/dia (2g sódio/dia)
-
Redução esperada: 5-6 mmHg
-
Evitar: industrializados, embutidos, temperos prontos
4. Aumentar Potássio:
-
Meta: 3,5-5g/dia (se função renal normal)
-
Fontes: banana, abacate, folhas verdes, leguminosas, damasco
5. Atividade Física:
-
Aeróbico: 150 min/semana moderado ou 75 min intenso
-
Resistido: 2-3x/semana (complementar)
-
Redução esperada: 5-8 mmHg
-
Contraindicação relativa: PA > 160/105 mmHg (ajustar medicação antes)
6. Cessação do Tabagismo:
-
Fundamental para redução de risco CV
-
Tabagismo ativo aumenta PA em 5-10 mmHg
7. Redução do Consumo de Álcool:
-
Homens: < 30g álcool/dia (< 2 doses)
-
Mulheres e idosos: < 15g/dia (< 1 dose)
-
1 dose = 350 mL cerveja ou 150 mL vinho ou 45 mL destilado
8. Manejo do Estresse:
-
Técnicas de relaxamento
-
Meditação mindfulness
-
Respiração lenta (6-10 resp/min, 15-20 min/dia)
-
Redução esperada: 4-5 mmHg
9. Sono Adequado:
-
Investigar e tratar apneia do sono
-
Higiene do sono
-
7-8 horas/noite
10. Café e Cafeína:
-
Moderação: < 200 mg cafeína/dia (< 3 xícaras café)
-
Polifenóis do café podem ter efeito benéfico
11. Cacau/Chocolate:
-
Chocolate amargo (> 70% cacau): pode reduzir PA
-
Evitar excesso de açúcar
💊 Princípios do Tratamento:
✅ Iniciar terapia combinada (2 drogas) na maioria dos casos
✅ Preferir associações fixas (1 comprimido)
✅ Classes de 1ª linha: IECA/BRA + BCC ou Tiazídico
✅ Titular dose ou adicionar 3ª droga se meta não atingida
✅ 4ª droga: Espironolactona
Algoritmo de Tratamento:
1ª Linha - Terapia Dupla Inicial:
Opção 1 (Preferencial):
IECA ou BRA
BCC di-hidropiridínico
Indicações:
-
Alto risco CV
-
Não obesos
-
Brancos
Opção 2:
IECA ou BRA
Tiazídico ou Tiazídico-símile
Indicações:
-
Idosos
-
Negros
-
Obesos
2ª Linha - Terapia Tripla:
IECA/BRA + BCC + Tiazídico
3ª Linha - Quarta Droga:
Adicionar Espironolactona 25-50 mg/dia
4ª Linha - HAS Resistente:
-
Adicionar: Betabloqueador, Clonidina, Doxazosina, Hidralazina
-
Encaminhar ao especialista
-
Considerar denervação renal (centros especializados)

Objetivos Principais:
-
Atingir meta pressórica conforme perfil do paciente
-
Prevenir lesão de órgão-alvo
-
Reduzir morbimortalidade cardiovascular
-
Melhorar qualidade de vida
Metas de PA - Resumo:
| Perfil | Meta PAS | Meta PAD |
|---|---|---|
| Adulto risco baixo/moderado | < 140 | < 90 |
| Adulto alto risco | 120-129 | 70-79 |
| Diabetes melito | 120-129 | 70-79 |
| DRC / DAC / AVE prévio | < 130 | < 80 |
| Idoso hígido (65-80 anos) | 130-139 | 70-79 |
| Idoso frágil (> 80 anos) | 140-149 | 70-79 |
Metas Adicionais:
-
Cessação tabagismo
-
LDL < 100 mg/dL (< 70 se alto risco)
-
HbA1c < 7% (se diabético)
-
IMC < 25 kg/m²
-
Atividade física regular
PROFILAXIA / PREVENÇÃO
| Intervenção | Redução de Risco |
|---|---|
| Manutenção de peso saudável | 50-70% |
| Atividade física regular | 30-50% |
| Dieta DASH/Mediterrânea | 40-60% |
| Restrição de sódio | 20-30% |
| Consumo moderado de álcool | 20-30% |
| Não fumar | Reduz risco CV global |
-
Tratamento adequado da HAS
-
Controle rigoroso de comorbidades (DM, dislipidemia)
-
Uso de AAS em prevenção CV (se indicado)
-
Estatina conforme risco cardiovascular
-
Rastreamento de lesão de órgão-alvo
-
Após IAM, AVE: controle rigoroso da PA
-
Uso de betabloqueador pós-IAM
-
IECA/BRA em IC ou FE reduzida
-
Antiagregação/anticoagulação conforme indicação
GUIA DE PRESCRIÇÃO
🇧🇷 Medicamentos Disponíveis no SUS (RENAME):
- Hidroclorotiazida
- Captopril
- Enalapril
- Losartana
- Anlodipino
- Propranolol
- Atenolol
- Metildopa (gestantes)
ESQUEMAS INICIAIS RECOMENDADOS:
▶▶ Esquema 1 - Preferencial:
Enalapril 5-20 mg 12/12h
Anlodipino 5-10 mg 1x/dia
Indicações: Primeira escolha para a maioria dos pacientes
Vantagens: Proteção renal, boa tolerabilidade, disponível SUS
▶▶ Esquema 2 - Alternativo:
Losartana 50-100 mg 1-2x/dia
Hidroclorotiazida 25 mg 1x/dia
Indicações: Idosos, negros, obesos
Vantagens: Menor custo, boa eficácia, disponível SUS
▶▶ Esquema 3 - Para Obesos/Negros:
Anlodipino 5-10 mg 1x/dia
Hidroclorotiazida 25 mg 1x/dia
Indicações: População negra, obesidade
TERCEIRA DROGA (se necessário):
Associar a classe que falta:
- Se IECA + BCC → adicionar Hidroclorotiazida 25 mg/dia
- Se IECA + Tiazídico → adicionar Anlodipino 5-10 mg/dia
- Se BRA + BCC → adicionar Hidroclorotiazida 25 mg/dia
QUARTA DROGA:
-
Espironolactona 25-50 mg/dia (não disponível em todas UBS)
-
Alternativa: Propranolol 40-80 mg 12/12h ou Atenolol 50-100 mg/dia
CLASSE A - Diuréticos Tiazídicos:
| Medicamento | Dose Inicial | Dose Máxima | SUS |
|---|---|---|---|
| Hidroclorotiazida | 25 mg 1x/dia | 50 mg/dia | ✅ |
| Clortalidona | 12,5 mg 1x/dia | 25 mg/dia | ❌ |
| Indapamida | 1,5 mg 1x/dia | 2,5 mg/dia | ❌ |
Efeitos adversos: Hipocalemia, hiponatremia, hiperuricemia, disfunção erétil
Contraindicações: Gota aguda
Monitorização: Potássio, creatinina, ácido úrico
CLASSE B - Bloqueadores de Canais de Cálcio (BCC):
| Medicamento | Dose Inicial | Dose Máxima | SUS |
|---|---|---|---|
| Anlodipino | 5 mg 1x/dia | 10 mg/dia | ✅ |
| Nifedipino retard | 20 mg 12/12h | 60 mg/dia | ❌ |
| Lercanidipino | 10 mg 1x/dia | 20 mg/dia | ❌ |
Efeitos adversos: Edema maleolar, cefaleia, rubor facial
Contraindicações relativas: IC descompensada (evitar)
Vantagens: Boa tolerabilidade, sem efeitos metabólicos
CLASSE C - IECA (Inibidores da ECA):
| Medicamento | Dose Inicial | Dose Máxima | SUS |
|---|---|---|---|
| Enalapril | 5 mg 12/12h | 20 mg 12/12h | ✅ |
| Captopril | 25 mg 8/8h | 50 mg 8/8h | ✅ |
| Ramipril | 2,5 mg 1x/dia | 10 mg/dia | ❌ |
Indicações especiais: IC, pós-IAM, diabetes com proteinúria, DRC
Efeitos adversos: Tosse seca (10-15%), hipercalemia, angioedema (raro)
Contraindicações: Gestação, estenose renal bilateral, angioedema prévio
Monitorização: Creatinina e potássio (7-10 dias após início)
CLASSE D - BRA (Bloqueadores do Receptor AT1):
| Medicamento | Dose Inicial | Dose Máxima | SUS |
|---|---|---|---|
| Losartana | 50 mg 1x/dia | 100 mg 1-2x/dia | ✅ |
| Valsartana | 80 mg 1x/dia | 320 mg/dia | ❌ |
| Telmisartana | 40 mg 1x/dia | 80 mg/dia | ❌ |
Indicações: Mesmas do IECA, alternativa quando há tosse
Efeitos adversos: Hipercalemia (menos tosse que IECA)
Contraindicações: Gestação, estenose renal bilateral
⚠️ Não associar IECA + BRA
CLASSE E - Antagonistas de Aldosterona:
| Medicamento | Dose Inicial | Dose Máxima | Indicação |
|---|---|---|---|
| Espironolactona | 25 mg 1x/dia | 50 mg/dia | HAS resistente (4ª droga) |
Efeitos adversos: Hipercalemia, ginecomastia (homens)
Contraindicações: TFG < 30, K > 5,0 mEq/L
Monitorização: Potássio e creatinina rigorosos
CLASSE F - Betabloqueadores:
| Medicamento | Dose Inicial | Dose Máxima | SUS |
|---|---|---|---|
| Propranolol | 40 mg 12/12h | 160 mg 12/12h | ✅ |
| Atenolol | 25 mg 1x/dia | 100 mg/dia | ✅ |
| Carvedilol | 6,25 mg 12/12h | 25 mg 12/12h | ❌ |
Indicações preferenciais: Pós-IAM, IC, taquiarritmias, DAC
NÃO são primeira linha para HAS isolada
Efeitos adversos: Bradicardia, fadiga, broncoespasmo
Contraindicações: DPOC grave, BAV 2º/3º grau, asma
Paciente com Diabetes:
-
Preferir IECA ou BRA (proteção renal)
-
Meta: 120-129/70-79 mmHg
-
Monitorizar função renal e potássio
Paciente com DRC:
-
Preferir IECA ou BRA (reduz proteinúria)
-
Se TFG < 30: evitar Espironolactona
-
Ajustar dose de IECA/BRA conforme TFG
Paciente Pós-IAM:
-
Betabloqueador obrigatório
-
IECA preferencial
-
Meta: < 130/80 mmHg
Paciente com IC:
-
IECA/BRA + Betabloqueador + Espironolactona
-
Evitar BCC não di-hidropiridínicos
-
Diurético de alça se congestão
Idoso Frágil:
-
Iniciar com monoterapia
-
Titular lentamente
-
Meta menos rigorosa: 140-149/70-79 mmHg
-
Atenção à hipotensão postural
Gestante:
-
Metildopa 250-500 mg 8/8h (1ª escolha)
-
Alternativas: Anlodipino, Pindolol
-
❌ Contraindicado: IECA, BRA, Espironolactona
Paciente Negro:
- Melhor resposta: BCC + Tiazídico
- IECA/BRA menos eficaz em monoterapia
HAS + Gota:
-
Evitar tiazídicos (1ª escolha: IECA + BCC)
-
Losartana tem discreto efeito uricosúrico
| Combinação | Doses Disponíveis | SUS |
|---|---|---|
| Losartana + Hidroclorotiazida | 50/12,5 mg ou 100/25 mg | Algumas UBS |
| Enalapril + Hidroclorotiazida | 20/12,5 mg | Raro |
| Anlodipino + Losartana | 5/50 mg | ❌ |
| Tripla (IECA + BCC + Tiazídico) | Várias | ❌ |
EXAMES COMPLEMENTARES
Avaliação Inicial - Todos os Pacientes:
| Exame | Objetivo | Valores de Referência |
|---|---|---|
| Creatinina sérica | Avaliar função renal | 0,7-1,2 mg/dL |
| TFG estimada | Quantificar função renal | > 60 mL/min |
| Potássio | Investigar hiperaldosteronismo | 3,5-5,0 mEq/L |
| Glicemia jejum | Rastrear diabetes | < 100 mg/dL |
| HbA1c | Avaliar controle glicêmico | < 5,7% |
| Colesterol total | Risco cardiovascular | < 200 mg/dL |
| LDL | Alvo terapêutico | < 100 mg/dL |
| HDL | Fator protetor | > 40 mg/dL (♂), > 50 (♀) |
| Triglicerídeos | Risco cardiovascular | < 150 mg/dL |
| Ácido úrico | Marcador risco CV | < 7 mg/dL (♂), < 6 (♀) |
| EAS (urina tipo 1) | Proteinúria, hematúria | Negativo |
| Microalbuminúria | LOA renal precoce | < 30 mg/g creatinina |
| TSH | Função tireoidiana | 0,4-4,0 mUI/L |
| ECG 12 derivações | HVE, isquemia, arritmias | - |
Creatinina e TFG:
-
TFG < 60 mL/min → DRC estágio 3 (LOA renal)
-
↑ creatinina > 30% após IECA/BRA → investigar estenose renal bilateral
Potássio:
-
K < 3,5 sem diurético → suspeitar hiperaldosteronismo primário
-
K > 5,5 → ajustar IECA/BRA/Espironolactona
Microalbuminúria:
-
30-300 mg/g → LOA renal subclínica (↑ risco CV)
300 mg/g → LOA renal clínica (nefropatia estabelecida)
ECG:
-
HVE (Sokolow-Lyon: SV1 + RV5/V6 > 35 mm)
-
Ondas T invertidas → isquemia
-
FA → anticoagulação
Glicemia/HbA1c:
-
Jejum 100-125 mg/dL → pré-diabetes
-
Jejum ≥ 126 mg/dL → diabetes
-
HbA1c 5,7-6,4% → pré-diabetes
-
HbA1c ≥ 6,5% → diabetes
MAPA:
-
Confirmar diagnóstico de HAS
-
Suspeita de jaleco branco ou mascarada
-
HAS resistente
-
Sintomas de hipotensão
Ecocardiograma:
-
HVE no ECG
-
Suspeita de IC
-
Sopros cardíacos
-
Alto risco cardiovascular
Ultrassom de Carótidas:
-
Sopro carotídeo
-
AVE/AIT prévio
-
DAP conhecida
-
Alto risco CV (reclassificação)
VOP (Velocidade Onda Pulso):
-
Baixo/médio risco (reclassificação)
-
Valores > 10 m/s indicam rigidez arterial
Investigação de HAS Secundária:
-
Aldosterona/Renina plasmática (hiperaldosteronismo)
-
Doppler renal (estenose artéria renal)
-
Metanefrinas urinárias/plasmáticas (feocromocitoma)
-
Cortisol livre urinário (Cushing)
-
Polissonografia (apneia do sono)
DOENÇAS RELACIONADAS
Associações Frequentes:
-
Diabetes melito tipo 2
-
Dislipidemia
-
Síndrome metabólica
-
Obesidade
-
Doença renal crônica
-
Insuficiência cardíaca
-
Fibrilação atrial
Complicações:
-
Doença arterial coronariana
-
Infarto agudo do miocárdio
-
AVE isquêmico/hemorrágico
-
Retinopatia hipertensiva
-
Nefropatia hipertensiva
-
Doença arterial periférica
-
Demência vascular
SCORES, ESCALAS E CALCULADORAS
-
Variáveis: idade, sexo, PA sistólica, colesterol total, HDL, tabagismo, região
-
Categorias: baixo (< 5%), moderado (5-10%), alto (> 10%)
-
Ferramenta europeia validada para estratificação de risco
-
Variáveis: idade, sexo, PA, colesterol total, HDL, DM, tabagismo
-
Estima risco de evento CV em 10 anos
-
Amplamente utilizado na prática clínica brasileira
-
Variáveis: creatinina, idade, sexo, raça
-
Estima filtração glomerular
-
Melhor preditor de função renal que creatinina isolada
-
Fórmula: Peso(kg) / Altura(m)²
-
Normal: 18,5-24,9 kg/m²
-
Sobrepeso: 25-29,9 kg/m²
-
Obesidade: ≥ 30 kg/m²
-
Fórmula: Cintura / Quadril
-
Risco aumentado: ♂ > 0,9, ♀ > 0,85
-
Marcador de adiposidade visceral e risco CV
ATLAS CLÍNICO
-
Grau I: Estreitamento arteriolar
-
Grau II: Cruzamento arteriovenoso patológico
-
Grau III: Hemorragias e exsudatos algodonosos
-
Grau IV: Papiledema (emergência hipertensiva!)
-
Fundoscopia essencial em HAS estágio 2-3
-
Hipertrofia ventricular esquerda (ecocardiograma)
-
Cardiomegalia (Raio-X tórax)
-
Estenose aórtica calcificada
-
Dilatação do átrio esquerdo



FLUXOGRAMA DE MANEJO
📋 Algoritmo Simplificado de Manejo:
1. CONFIRMAÇÃO DIAGNÓSTICA
↓
PA ≥ 140/90 em 2+ consultas OU MAPA/MRPA ≥ 130/80
↓
2. ESTRATIFICAÇÃO
↓
-
Classificar estágio (1, 2, 3)
-
Calcular risco cardiovascular
-
Investigar LOA e comorbidades
↓
3. DECISÃO TERAPÊUTICA
↓
├─ Grau 1 + Baixo Risco → Mudanças estilo vida 3 meses
├─ Grau 1 + Risco Mod/Alto → MEV + Terapia dupla
└─ Grau 2-3 → MEV + Terapia dupla imediata
↓
4. ESCOLHA MEDICAMENTOSA
↓
IECA ou BRA + BCC ou Tiazídico
(Preferir combinação fixa)
↓
5. SEGUIMENTO 4-8 SEMANAS
↓
├─ Meta atingida → Seguimento semestral/anual
└─ Meta não atingida → Aumentar dose ou adicionar 3ª droga
↓
Terapia tripla: IECA/BRA + BCC + Tiazídico
↓
├─ Controlado → Manter
└─ Não controlado → Adicionar Espironolactona
↓
HAS RESISTENTE → Encaminhar especialista

INFOGRÁFICO RESUMO
📌 HIPERTENSÃO ARTERIAL - PONTOS-CHAVE
📏 Diagnóstico:
- PA ≥ 140/90 mmHg (2+ consultas)
- MAPA ≥ 130/80 mmHg
🎯 Metas:
- Adultos: < 140/90 mmHg
- Alto risco: 120-129/70-79 mmHg
- Idosos: 130-139/70-79 mmHg
💊 Tratamento 1ª Linha:
- IECA/BRA + BCC ou Tiazídico
- Sempre associar MEV
🚨 Red Flags:
- PA ≥ 180/120 + sintomas
- Dor torácica, dispneia, déficit neurológico
- → Emergência!
🔍 Investigar Secundária Se:
- < 30 anos ou início súbito > 50 anos
- HAS resistente verdadeira
- Hipocalemia espontânea
📊 Exames Básicos:
- Creatinina, K, glicemia, lipídios
- EAS, microalbuminúria
- ECG
🥗 Medidas Não Farmacológicas:
- ↓ Peso (meta IMC < 25)
- ↓ Sal (< 5g/dia)
- Exercício (150 min/sem)
- DASH ou Mediterrânea
- Parar de fumar
- ↓ Álcool
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- McEvoy JW, McCarthy CP, Bruno RM, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension. Eur Heart J. 2024; 45(38):3912-4018.
-
Barroso WK, Rodrigues CI, Bortolotto LA, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021; 116(3):516-658.
-
Feitosa AD, Barroso WK, Mion Junior D, et al. Diretrizes Brasileiras de Medidas da Pressão Arterial Dentro e Fora do Consultório – 2023. Arq Bras Cardiol. 2024; 121(4):20240113.
-
Stergiou GS, Palatini P, Parati G, et al. 2021 European Society of Hypertension practice guidelines for office and out-of-office blood pressure measurement. J Hypertens. 2021; 39(7):1293-1302.
-
Unger T, Borghi C, Charchar F, et al. 2020 International Society of Hypertension global hypertension practice guidelines. J Hypertens. 2020; 38(6):982-1004.
-
US Preventive Services Task Force; Krist AH, Davidson KW, et al. Screening for hypertension in adults: US preventive services task force reaffirmation recommendation statement. JAMA. 2021; 325(16):1650-1656.
-
Gupta DK, Lewis CE, Varady KA, et al. Effect of Dietary Sodium on Blood Pressure: A Crossover Trial. JAMA. 2023; 330(23):2258-2266.
-
Sundström J, Lind L, Nowrouzi S, et al. Heterogeneity in Blood Pressure Response to 4 Antihypertensive Drugs: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2023; 329(14):1160-1169.
-
Matsushita K, Kaptoge S, Hageman SHJ, et al. Including measures of chronic kidney disease to improve cardiovascular risk prediction by SCORE2 and SCORE2-OP. Eur J Prev Cardiol. 2023; 30(1):8-16.
-
Parati G, Goncalves A, Soergel D, et al. New perspectives for hypertension management: progress in methodological and technological developments. Eur J Prev Cardiol. 2023; 30(1):48-60.
LINKS DIRETOS PARA DIRETRIZES
- [Diretriz Brasileira de Hipertensão 2020 - SBC]
- [ESC Guidelines 2024 - European Society of Cardiology]
RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS
💡 DICAS PARA A PRÁTICA CLÍNICA:
1. Aferição de PA:
- Sempre use técnica adequada (repouso 5 min, manguito correto)
- Confirme com MAPA/MRPA antes de iniciar tratamento
- Suspeite de jaleco branco se PA consultório >> PA casa
2. Escolha da Terapia:
- Inicie com 2 drogas na maioria dos casos
- Prefira combinações fixas (↑ adesão)
- SUS: Enalapril + Anlodipino é excelente primeira escolha
3. Metas:
- Seja realista com idosos frágeis
- Diabetes e DRC: metas mais rigorosas
- Evite redução excessiva (hipoperfusão)
4. Seguimento:
- Consultas mensais até controle
- Depois, semestrais/anuais
- Sempre checar adesão e efeitos adversos
5. Red Flags:
- Tosse com IECA → trocar para BRA
- Hipocalemia espontânea → investigar hiperaldosteronismo
- Angioedema com IECA → contraindicação absoluta
- HAS em jovem < 30 anos → investigar secundária
ORIENTAÇÕES AO PACIENTE
💬 O QUE É HIPERTENSÃO (PRESSÃO ALTA)?
É uma doença crônica em que a pressão do sangue nas artérias fica constantemente elevada. A maioria das pessoas não sente nada, mas a pressão alta silenciosamente danifica coração, cérebro, rins e vasos sanguíneos.
Por que tratar se não sinto nada?
Porque previne infartos, derrames (AVCs), insuficiência renal e outras complicações graves.
🚨 PROCURE PRONTO-SOCORRO SE APRESENTAR:
-
Dor no peito forte
-
Falta de ar intensa
-
Fraqueza ou formigamento em um lado do corpo
-
Dificuldade para falar
-
Dor de cabeça muito forte e súbita
-
Perda de visão súbita
-
Confusão mental
-
Pressão muito alta (≥ 180/120) com mal-estar
- Se a pressão ficar acima de 140/90 em casa várias vezes
-
Efeitos colaterais das medicações (tonturas, tosse, inchaço)
-
Dificuldade para comprar os remédios
-
Dúvidas sobre o tratamento
📏 Como Medir a Pressão Corretamente:
-
Use aparelho automático de braço (mais confiável)
-
Descanse 5 minutos sentado antes de medir
-
Não fume, não tome café 30 min antes
-
Braço apoiado na altura do coração
-
Meça 2-3 vezes, com 1-2 minutos de intervalo
-
Anote os valores e mostre ao médico
🥗 Alimentação:
-
Reduza o sal: Não adicione sal na comida, evite temperos prontos, enlatados, embutidos
-
Aumente frutas e verduras: Pelo menos 5 porções/dia
-
Alimentos bons: Banana, laranja, folhas verdes, feijão, lentilha
-
Evite: Refrigerantes, salgadinhos, congelados, fast-food
🏃 Atividade Física:
-
Caminhe 30 minutos, 5 dias por semana
-
Se não conseguir: comece com 10 minutos e aumente aos poucos
-
Qualquer movimento ajuda: subir escadas, jardinagem, dançar
💊 Medicações:
-
NUNCA pare por conta própria - pode causar infarto ou derrame
-
Tome todo dia no mesmo horário (ajuda a lembrar)
-
Se esquecer: tome assim que lembrar (mas não dobre a dose)
-
Efeitos colaterais: converse com seu médico, ele pode ajustar
🚭 Pare de Fumar:
-
O cigarro aumenta muito o risco de infarto e derrame
-
Procure ajuda: UBS tem programa de cessação tabágica
🍺 Álcool:
-
Se beber: no máximo 1-2 doses/dia
-
Melhor ainda: evitar completamente
"Posso parar o remédio se a pressão normalizar?"
NÃO. A pressão normalizou porque você está tomando o remédio. Se parar, ela sobe novamente.
"Remédio de pressão faz mal para os rins?"
NÃO. Na verdade, protege seus rins. O que danifica os rins é a pressão alta não tratada.
"Vou tomar remédio para sempre?"
Provavelmente sim. A hipertensão é uma doença crônica. Mas com tratamento correto, você viverá bem e evitará complicações.
"Posso tomar remédio natural ao invés dos comprimidos?"
Os remédios receitados pelo médico têm eficácia comprovada. Chás e naturais podem ajudar, mas NÃO substituem os medicamentos.
✅ RESUMO FINAL:
✔ Tome suas medicações todos os dias
✔ Reduza o sal e melhore a alimentação
✔ Pratique atividade física regular
✔ Pare de fumar
✔ Meça sua pressão em casa regularmente
✔ Compareça às consultas
✔ Procure atendimento urgente se tiver sintomas graves